As disciplinas do pensamento social, derivações extensivas do poder de Estado, sempre privilegiaram as “macroformas” organizacionais, como o próprio Estado, a Igreja, a Indústria etc., logo, sobre os seus efeitos de coordenação ou domínio da vida. O campo acadêmico da comunicação é afetado pelo contexto sociocultural em que se desenvolve, conforme se verifica nas noções disseminadas pela sociologia norte-americana da comunicação, fortemente marcadas pela realidade industrial daquele país. A exportação dessas categorias para o resto do mundo não se limitou à academia, tendo sido bastante ativa em discursos e propostas de agências de cooperação, com vistas ao desenvolvimento social de regiões economicamente carentes. Esse posicionamento nos afeta particularmente quando nos indagamos sobre a permanência hegemônica do pensamento colonial nas elites latino-americanas. Perguntamo-nos: essa permanência estaria sendo de algum modo abalada pelas mudanças perceptíveis na consciência coletiva da diversidade étnica e cultural como um problema prático e filosófico de primeiro plano? Essas mudanças, de fato, tornam-se perceptíveis pela mutação tecnológica na vida social, estreitamente associada à ideia de comunicação. No caso de minha perspectiva atual de pesquisa, que é o racismo, a conclusão imediata é pessimista. O sujeito que carrega nas costas o peso do mal-estar civilizatório do racismo é múltiplo, é o Outro diverso da humanidade eurocentrada, branca. Esse Outro, o negro, para mim, permanece muito longe de qualquer aporte que as ciências sociais possam trazer a questões multisseculares e aflitivas persistentes na sociedade contemporânea, como é o caso do racismo. Neste assunto, a intransigência conceitual –– uma raiz subterrânea da suspeita de decadência do pensamento crítico –– é claramente infrutífera. Queremos crer que seja dessa ordem o obstáculo compreensivo do racismo, um mal à beira do inominável, racionalizado ao extremo por palavras e teorias, porém resiliente na prática dos relacionamentos humanos. Racismo é uma forma de imobilidade do pior. Não porque seja algo “natural” no espírito humano, mas uma constante na consciência forjada pelos sistemas coloniais. Apesar do esclarecimento científico e do avanço tecnológico, esse “inconcebível” ou essa impostura cognitiva –– perversamente oculta entre o plano da racionalidade e o da sensibilidade e, por isso, resistente à prova científica da falsificação –– persiste como um universal infame sob a plena vigência de uma modernidade liberal do mercado e da mídia, aparentemente indiferentes à qualidade de seus conteúdos. As ciências sociais sempre bordejaram essa questão, sem realmente dar maiores aportes. Agora é inevitável: a questão está colocada no topo dos embates identitários. E a questão metodológica se impõe, uma vez que o identitarismo é um tópico problemático (nos EUA, já se fala em “identity trap”) e sem consistência teoria na movimentação social, fomentado por uma metodologia incompatível. A minha proposta centra-se na construção de outro sistema de inteligibilidade para a diversidade etnocultural, sempre tomando a comunicação como uma singular perspectiva científica para a sociedade estruturada por mercado, novas tecnologias e mutação urbano-industrial.