Projeto de pesquisa
Mídia, memória e amnésia: o jornalismo e a cultura da nostalgia no mundo contemporâneo
Descrição
Um dos objetivos desse projeto é apresentar, da perspectiva da comunicação, uma discussão sobre o conceito de memória e de esquecimento em algumas de suas múltiplas acepções e também tratar das suas relações com três duplas de questões que lhes são correlatas: indivíduo e sociedade; tempo e narrativa; e identidade e poder. Para pensar a mídia como um lugar privilegiado na produção de narrativas mnemônicas na contemporaneidade, é preciso colocar como centrais questões realtivas à temporalidade, a identidades sociais, ao ambiente tecnológico, à lógica do espetáculo e do entretenimento. O objetivo final é chamar atenção para o que nos parece ser as particularidades da memória hoje. Nossa proposta é fazer isso enfatizando o campo jornalístico, onde as articulações com a cultura da memória são menos evidentes, devido ao presentismo e importância da atualidade na produção da notícia. Para atingir esses objetivos teóricos, o projeto parte não apenas de uma discussão bibliográfica, mas também da análise de fontes empíricas. Será tomado como ponto de partida um conjunto bastante diversificado de materiais da década de 1990 aos dias atuais. Utilizaremos não apenas produtos midiáticos identificados com a cultura da memória e da nostalgia (como filmes, minisséries, programas jornalísticos, biografias, sites, redes sociais, revistas de divulgação científica, livros de autoajuda e outras obras impressas e audiovisuais), mas também aqueles considerados de autorreferenciação (como editoriais, publicidade e propagandas, edições comemorativas, retrospectivas de fim de ano, edições institucionais). Como parte desse último grupo também entram as efemérides comemorativas, momentos muito explorados pelas empresas de comunicação para falarem de si e de seus valores. Nos tempos em que vivemos, lembrar e esquecer se articulam numa lógica que vai além da dialética fundadora de toda memória e constitui a próprio princípio contraditório do seu funcionamento. E é exatamente essa complexa, difícil e problemática articulação entre memória e amnésia no mundo contemporâneo o tema desse projeto de pesquisa. A intenção, aqui, é justamente tentar entender de que maneira essas duas dimensões coexistem nas sociedades contemporâneas e perceber quais as relações que entre si estabelecem. Em que medida amnésia e a memória podem coexistir e se relacionar? Como nossa reflexão parte do campo da comunicação, há uma questão importante que nos toca de perto: qual é o papel da mídia na conformação de uma memória social na contemporaneidade? Se examinarmos de perto a cultura da memória e seus produtos, percebemos facilmente o lugar privilegiado que os meios de comunicação em geral – sejam os novos ou os tradicionais – ocupam na produção e fortalecimento de suas práticas. E, então, muitas perguntas se colocam. Por que existe uma obsessão pela memória na mídia? Como certos enquadramentos da memória se externalizam e se legitimam nos meios de comunicação? A chamada “cultura da memória” parece estar por toda parte: filmes, livros, exposições, vestuário e mobiliário retro. Mas o que é importante sublinhar é o lugar que as mídias (as tradicionais e as novas) ocupam nesse processo. O culto ao passado perpassa a sociedade como um todo, inclusive as práticas pessoais mais cotidianas (como o desejo de tudo guardar e arquivar, o medo do esquecimento e da amnésia), mas é nos meios de comunicação que ele ganha maior visibilidade e poder de agendamento social. Para reforçar a ideia da existência de uma intrínseca relação entre cultura da memória e cultura da mídia, podemos citar alguns exemplos de apropriação da nostalgia pela indústria do entretenimento midiático: superproduções cinematográficas que exploraram a temática histórica, remakes de novelas, séries e minisséries sobre o passado de uma localidade ou nação ou sobre determinados eventos específicos, canais de TV dedicados integralmente à história, como o History Channel, assim como programas televisivos como o Arquivo N, da GloboNews. Vale destacar o sucesso do canal Viva, que reprisa programas produzidos pela TV Globo e pelo GNT e é hoje um dos mais assistidos da TV paga brasileira. Os exemplos ligados ao entretenimento midiático poderiam ser citados a exaustão, mas há outro fenômeno que nos interessa mais particularmente e sobre o qual repousará a ênfase da pesquisa aqui proposta. Diz respeito ao jornalismo, que também tem sido afetado pelo movimento de valorização do passado. Nos últimos anos, tem feito constantemente apelo à história, tanto nos seus processos de legitimação social, de autorreferenciação, quanto no seu enunciar cotidiano, jornalístico propriamente dito (como notícias, reportagens, notas informativas). E o têm feito de uma maneira cada vez mais constante e intensa. Nos últimos anos, seu olhar tem se voltado mais para trás. Estamos presenciando a uma verdadeira explosão do discurso da memória no jornalismo. Isso poderia parecer uma contradição, pois o jornalismo é, por definição, a negação do passado. Os jornais e os programas jornalísticos em geral são produzidos para comunicar aos contemporâneos, sincronicamente localizados, os acontecimentos de seu tempo. São feitos para os leitores e espectadores, não para os historiadores. Sua âncora é o tempo presente. Seu eixo articulador é o atual, o novo. Eis nossa principal hipótese: a dimensão memorialística da prática jornalística é fundamental para dar sentido à profissão no mundo contemporâneo. E acaba funcionado, inclusive, como um elemento importante no próprio processo de legitimação social de sua função “principal”. Os jornalistas percebem a dimensão memorialista de sua prática e a utilizam para fundamentar seus valores, para justificar sua deontologia. Semantizar o presente e construir sentidos sobre o passado têm sido, na atualidade, uma das características mais valorizados pelos meios de comunicação jornalísticos.