O debate acerca da arte na América Latina apresenta um histórico de disputas orientadas tanto para as particularidades do Sul, quanto para o universalismo das práticas artísticas europeias e norte-americanas. A necessidade de atualizar esse debate torna-se urgente no contexto atual da arte, assinalado por um número expressivo de produções artísticas latino-americanas, especialmente aquelas voltadas para problemas envolvendo as emergências climáticas do Antropoceno. Por meio de uma abordagem transdisciplinar que articula a cartografia à crítica decolonial, o projeto analisa obras artísticas, predominantemente fotográficas, voltadas para as questões que envolvem a urgência em repensar o atual modelo de vida na Terra. Fazem parte dessa produção fotográfica atual trabalhos que atravessam diferentes campos artísticos e utilizam os mais variados materiais para criar poéticas que valorizam as possibilidades de reinvenção da vida alternativas ao projeto humanista ocidental moderno. Importa ressaltar que tais investidas se inserem, muitas vezes, no âmbito de uma fotografia experimental e expandida, e escapam aos modelos hegemônicos dos principais dispositivos de produção de imagem. Sob essa perspectiva, trata-se de perceber como a fotografia atravessada por práticas experimentais pode exercer, na atualidade, o papel de uma potente estratégia estético-política na produção de outros modos de ser e de estar em comum. Partimos da premissa de que o esgotamento do planeta, dos modos de produção e da própria centralidade do humano, temas recorrentes para muitos desses artistas, encontram correspondência no esgotamento do pensamento ontológico sobre a imagem fotográfica, pressuposto nos dispositivos de produção visual e audiovisual modernos, e que tal perspectiva permite contribuir de modo original na proposição de um giro epistemológico no tratamento da fotografia latino-americana. No limite dos esgotamentos sociais, políticos, estéticos e ambientais intensificados na atualidade, essa produção artística é marcada, de diferentes formas, por um pensamento relacional (Haraway, Escobar, Deleuze, Guattari, Demos, Espejo, Glissant), seja a partir das inespecificidades, dos hibridismos das formas, das passagens entre os meios, das indiscernibilidades entre os campos, ou dos parentescos entre as formas de vida, de modo a instaurar relações que podemos chamar de estética e politicamente transformadoras. Pretende-se, portanto, superar epistemologias eurocêntricas, sistematizando um quadro teórico situado que compreenda a imagem fotográfica não apenas como representação, mas como dispositivo de disputa histórica e modo de sobrevivência, questionando também o papel da fotografia na arte contemporânea. Ao confrontar o esgotamento dos modelos visuais modernos, esta investigação propõe novas categorias analíticas para o Sul Global, e visa consolidar uma rede de internacionalização acadêmica entre o Brasil e países do Cone Sul.